Eu não sou a Martha Stewart! E se você for, tá tudo bem!

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Chegou o grande dia! Eu e meu namorado finalmente iriamos pro nosso apê! Caramba! Quanta expectativa!! Me organizei pra tudo sair perfeito, tirei férias do trabalho para poder deixar a casinha do jeitinho que eu queria pra gente, e ele também.

Nos dias que foram seguindo, percebi algumas coisas acontecendo comigo. A cozinha, tinha que estar perfeita, sem louça na pia. A comida? Faço tudo! Sem repetir o cardápio – pra agradar o meu amor. A casa sempre limpa. Comecei a concordar com a minha mãe quando ela disse que as camisas do meu namorado eram minha responsabilidade e a pegar dicas de como tirar manchas e fazer molhos de roupa branca.

Inclusive, nessa mesma conversa, aconteceu o click que me trouxe à lucidez. Minha mãe, finalizando a explicação das roupas, justificou dizendo: “afinal, se seu namorado está com uma roupa mal cuidada, todos vão achar que você é desleixada.”

Minha nossa! Onde eu fui parar?? Logo eu, fanzola de Simone de Bevoir, Frida Kahlo entre tantas e tantas outras mulheres fantásticas, estou aqui, pagando de esposa do ano, me desmontando em várias, assumindo todas as responsabilidades da casa, fazendo feijão novinho todos os dias? Por que? Pra que? Como assim?Lembrei da figura icônica da Martha Stewart que na minha opinião, era o Magaiver da amelisse… a mulher fazia o vaso, pintava o vaso, plantava as flores, para fazer o arranjo perfeito pra sala de jantar.

Refleti alguns pontos antes de surtar. Primeiro, iria voltar de férias, logo, o padrão Stewart deveria ser retirado o quanto antes, afinal, não teria nem tempo nem disposição para mantê-lo. Conversando com o namorado, igualmente feminista, que as coisas seriam um pouco diferentes, recebi como resposta: “ – Não vejo problemas, afinal, também moro aqui.”

Segundo ponto: O que me vez enviesar para isso? Como pode uma mulher independente, profissional, convivente do período histórico de transformações profundas na sociedade e nas relações afetivas, voltar para o “comidinha nova todo dia?”. A resposta que tive, foi óbvia. Ainda somos educadas para isso. Fui educada por uma profissional de mercado, que sempre me incentivou à independência e a focar na carreira, e ela, também acha que a responsabilidade da mancha é minha.

Na teoria, sei que não é. Sei, e quero ser essa mulher para meu filho ou filha, quando ele existir. Na prática, me surpreendi como a gente se ilude pensando que falar ser feminista muitas vezes fica no discurso e não na ação. Quando o namorado falou a coisa lógica do “também moro aqui”, fiquei motivada a achar ele fantástico. Stewart de novo!!! Ele realmente mora, então não faz mais que a obrigação.

Terceiro ponto: E se eu fosse Martha Stewart? Não tem nada mais desconfortável, em minha opinião do que aquela galera feminista que faz um julgamento em relação às escolhas das mulheres. Será que eu sou uma delas? No discurso, sei que cada mulher tem o pleno direito de fazer o que quiser e que o mundo, deve ser inteiro de possibilidades – inclusive SER Martha Stewart. Qual é o problema? Se faz sentido dentro do relacionamento dela, se ela não se sente oprimida e tem em seu discurso coerente com sua ação. Ok, se funciona para você, tá ótimo!

Após essas reflexões, busco viver de forma mais coerente dentro do que faz sentido pra mim. Dividimos as tarefas, faço as que mais gosto, ele também. Quando ouço da minha família que devo servi-lo antes de começar a comer no almoço de domingo, explico que ele tem vontade própria e sabe fazer o próprio prato. O que achei interessante de pensar sobre tudo isso, foi de pensar além do rótulo, da caixinha de “sou feminista”. Comecei a pensar o que faz sentido pra mim. Percebo muitas amigas em movimentos semelhantes nas pequenas ou grandes incoerências do discurso e da ação: desde a amiga que acha um absurdo dividir a conta do jantar àquela outra que procura um provedor. Ok. Sejamos incoerentes então. Mas na caixinha… não na ação.

 

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About Author

Thaiz Menezes

Psicóloga sistêmica, é profundamente curiosa pelas dinâmicas das relações afetivas, familiares e profissionais. Apaixonada por cinema e música, entende que uma dose de empatia pode salvar qualquer relacionamento.

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